quarta-feira, 15 de julho de 2015

IDENTIDADE CULTURAL

A ARTE E AS CULTURAS ANCESTRAIS





  • A arte está presente em todas as sociedades humanas. O interesse pela arte e pela estética é um dos elementos que nos caracteriza como espécie.
  • Em muitos grupos humanos, a arte se manifesta por meio de uma estética propositalmente coletiva, que reflete a identidade e valores culturais daquela sociedade.
  • Estudando a arte a partir de várias áreas do conhecimento: filosofia, história, sociologia, antropologia etc, estas acabam relacionando-se por causa da grande complexidade que envolve as manifestações humanas.
  • Com o processo de colonização, buscou-se impor a arte e cultura de origem europeia. Isso não impediu a manutenção de outras culturas ancestrais como a indígena e a africana, que estão enraizadas em nossa formação cultural.

Nota: "Em pleno século XXI, a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa diversidade de povos indígenas que vivem no país. Estima-se que, na época da chegada dos europeus, fossem mais de 1000 povos, somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente encontramos no território brasileiro 238 povos, falantes de mais de 180 línguas diferentes. Os povos indígenas somam, segundo o Censo IBGE 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente a 0,47% da população total do país. A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias, situadas no interior de 688 Terras Indígenas, de norte a sul do território nacional."

Fonte: Instituto Socioambiental
Disponível em:
O conceito de arte e os índios




Arte é uma categoria criada pelo homem ocidental. E, mesmo no Ocidente, o que deve ou não deve ser considerado arte está longe de ser um consenso. O que não dizer da aplicação desse termo em manifestações plásticas de povos que nem ao menos possuem palavra correspondente em suas respectivas línguas?

O assunto é complexo e, a despeito da inadequação do termo, muitas obras indígenas têm impactado a sensibilidade e/ou a curiosidade do “homem branco” desde o século XVI, época em que os europeus aportaram nas terras habitadas pelos ameríndios. Nesse período, objetos confeccionados por esses povos eram colecionados por reis e nobres como espécimes “raros” de culturas “exóticas” e “longínquas”.

Até hoje, uma certa concepção museológica dos artefatos indígenas continua a vigorar no senso comum. Para muitos, essas obras constituem “artesanato”, considerado uma arte menor, cujo artesão apenas repete o mesmo padrão tradicional sem criar nada novo. Tal perspectiva desconsidera que a produção não paira acima do tempo e da dinâmica cultural. Ademais, a plasticidade das obras resulta da confluência de concepções e inquietações coletivas e individuais, apesar de não privilegiar este último aspecto, como ocorre na arte ocidental. Confeccionados para uso cotidiano ou ritual, a produção de elementos decorativos não é indiscriminada, podendo haver restrições de acordo com categorias de sexo, idade e posição social. Exige ainda conhecimentos específicos acerca dos materiais empregados, das ocasiões adequadas para a produção etc.
habitação xavante


habitação tuyuka

habitação wajapi

habitação xavante

habitação yawalapiti


http://pt.slideshare.net/liladonato/sistemas-construtivos-tradicionais-no-brasil-arquitetura-indgena?from_action=save&from=fblanding


A Arte Baniwa, marca criada por índios Baniwa do alto rio Negro (AM), é um exemplo bem sucedido dessa empreitada.




1. Rabo de pacu- Tsiipa ittipi

2. Escama de Pirarucu – Pirarucu Iwhi

3. Desenho da costa de tipo de besouro – Kettamarhi

4. Sarapó pintado assado – Maanapi pamitsirinikhaa pamodzoa

5. Pegada de onça- Dzawi iphoakaromi

6. Tapuru – Aakoro Iewhe

7. Desenho da costa de um tipo de besouro sem cruz – kettamarhi makorotshaninadalitsa

8. Olho de ave noturna- Makowethi

9. Desenho da costa de tipo de besouro com cruz- Kettamarhi

10. Pegada de massarico- Iwithoipa



As formas de manipular pigmentos, plumas, fibras vegetais, argila, madeira, pedra e outros materiais conferem singularidade à produção ameríndia, diferenciando-a da arte ocidental, assim como da produção africana ou asiática. Entretanto, não se trata de uma “arte indígena”, e sim de “artes indígenas”, já que cada povo possui particularidades na sua maneira de se expressar e de conferir sentido às suas produções.

Urucum


Pintura com pigmento do urucum


Os suportes de tais expressões transcendem as peças exibidas nos museus e feiras (cuias, cestos, cabaças, redes, remos, flechas, bancos, máscaras, esculturas, mantos, cocares...), uma vez que o corpo humano é pintado, escarificado e perfurado; assim como o são construções rochosas, árvores e outras formações naturais; sem contar a presença crucial da dança e da música. Em todos esses casos, a ordem estética está vinculada a outros domínios do pensamento, constituindo meios de comunicação – entre homens e mulheres, entre povos e entre mundos – e modos de conceber, compreender e refletir a ordem social e cosmológica.

Nas relações entre os povos, os artefatos também são objeto de troca, inclusive com o “homem branco”. Ultimamente, o comércio com a sociedade envolvente tem apontado uma alternativa de geração de renda por meio da valorização e divulgação de sua produção cultural.

Outras leituras

Para saber mais sobre o assunto, ver o artigo de Lúcia Hussak van Velthen, “Em outros tempos e nos tempos atuais: arte indígena”, no catálogo Artes Indígenas - Mostra do Redescobrimento, Fundação Bienal de SP (2000), e o livro Grafismo Indígena: Estudos de Antropologia Estética, organizado por Lux Vidal, Edusp/Nobel (2001)


Link:


Arte e cultura material dos karajás

Cerâmica karajá

A cultura material karajá envolve técnicas de construção de casas, tecelagem de algodão, adornos plumários, artefatos de palha, madeira, minerais, concha, cabaça, córtex de árvores e cerâmica.


aldeia karajá
cuia karajá


pente karajá

rede de dormir karajá

trançado com palha

A pintura corporal é significativa para o grupo. Na puberdade, os jovens de ambos os sexos submetiam-se à aplicação do omarura, dois círculos tatuados nas faces onde a mistura da tinta do jenipapo com a fuligem do carvão era aplicada sobre a face sangrada pelo dente do peixe-cachorra. Hoje, devido ao preconceito da população das cidades ribeirinhas, os jovens apenas desenham os dois círculos na época dos rituais. A pintura do corpo, realizada pelas mulheres, processa-se diferentemente nos homens, de acordo com as categorias de idade, sendo utilizado o sumo do jenipapo, a fuligem de carvão e o urucum. Alguns dos padrões mais comuns são as listas e faixas pretas nas pernas e nos braços. As mãos, os pés e as faces recebem pequeno número de padrões representativos da natureza, de modo especial, a fauna (Fénelon Costa, 1968).


tatuagem masculina

tatuagem feminina



A cestaria, feita tanto pelos homens como pelas mulheres, apresenta motivos trançados inspirados na fauna, como partes do corpo dos animais (Taveira, 1982). A arte cerâmica é exclusiva das mulheres, apresentando os mais variados tipos e motivos, desde utensílios domésticos, como potes e pratos, até bonecas com temas mitológicos, rituais, da vida cotidiana e da fauna.



cesta karajá

cesta karajá


Motivo de grande interesse dos turistas que visitam as aldeias Karajá, de modo especial nas temporadas da praias do rio Araguaia (junho, agosto e setembro), as bonecas Karajá tornaram-se mais um meio de subsistência do grupo.

bonecas licocós



bonecas licocós


Atividade única das mulheres, estas figuras de cerâmica tiveram no passado e ainda têm uma função lúdica para as crianças, mas também é instrumento de socialização da menina, conforme estudou Heloisa Fenélon Costa (1968), onde são modeladas dramatizações de acontecimentos da vida cotidiana. O contato imprimiu modificações quanto ao tamanho (se tornaram maiores) e ao material utilizado, como tinturas químicas. Entretanto, os motivos figurativos e padrões decorativos são mantidos pelas ceramistas mais novas, que inclusive ressaltam figuras dos mitos e dos ritos. É muito comum encontrar as bonecas karajá em lojas de artesanato ou nos museus das cidades.



escultura de tatu

escultura de onça


A plumária é muito elaborada, tendo uma relação direta com os rituais. Com a dificuldade de captura de araras, ave de grande interesse para os Karajá, esta arte tem sido reduzida na sua variedade, permanecendo apenas alguns enfeites, como o lori lori e o aheto, muito usados no ritual de iniciação dos meninos.


Adornos plumários


crianças karajás com adornos e pintura corporal

índio com cocar de penas




A arte dos grafismos

O grafismo dos grupos indígenas sempre chamou a atenção de cronistas e viajantes, desde a chegada dos primeiros europeus ao Brasil. Além da beleza dos desenhos, o que surpreendia os não-índios era a insistência da presença desses grafismos. Os índios sempre pintavam o próprio corpo e também decoravam suas peças utilitárias.









No entanto, durante muito tempo essas pinturas foram pouco estudadas pelos europeus. Eram consideradas apenas uma atividade lúdica, sem maiores significados dentro da cultura indígena a não ser o mero prazer da decoração. Há algumas décadas, estudiosos perceberam que o grafismo dos povos indígenas ultrapassa o desejo da beleza, trata-se sim, de um código de comunicação complexo, que exprime a concepção que um grupo indígena tem sobre um indivíduo e suas relações com os outros índios, com os espíritos, com o meio onde vive...









 Os índios, e também todos os homens de qualquer etnia, conseguem opor sua opção cultural à realidade da Natureza. Nas discussões em que os filósofos questionam o que diferencia o homem dos outros animais, a resposta alcança sempre a arte. Somente os homens criam obras artísticas; sejam pinturas, músicas, histórias, etc...


Em resumo: quando o índio pinta seu próprio corpo, ele demarca seu lugar dentro de seu mundo. E o faz com rara beleza. O antropólogo Darcy Ribeiro escreveu que o corpo humano é "a tela onde os índios mais pintam e aquela que pintam com mais primor".





Para certas etnias, os grafismos possuem uma outra função: indicar se o indivíduo pertence a um determinado grupo dentro da sociedade indígena.

Alguns povos indígenas dividem suas aldeias em duas metades. Qualquer índio desses povos pertence a uma metade ou à outra, e fazer parte de cada uma dessas metades implica em direitos e deveres específicos. Os índios Xerente que vivem no norte do estado do Tocantins são um exemplo. Eles dividem sua sociedade nas metades Sdakrã, identificada com a Lua; e metade Siptato, identificada com o Sol. Cada metade possui um grafismo específico: os índios Sdakrã pintam o corpo sempre com traços horizontais, enquanto os índios da metade Siptato usam apenas os traços verticais. Cada uma dessas metades é dividida em vários clãs diferentes e para cada clã há também um padrão de grafismo exclusivo: traços finos, traços grossos, círculos, etc... Isso significa que um Xerente, ao pintar o próprio corpo, identifica-se perante os outros membros de sua comunidade.

Os índios Kadiwéu, do Mato Grosso do Sul, também utilizavam os grafismos de seu povo como identificações internas em sua sociedade. São desenhos tão elaborados, que chamaram a atenção de vários pesquisadores. Até o início do século XX, os grafismos eram tatuados no corpo. Hoje em dia são pintados com o suco do jenipapo principalmente nas celebrações. Os padrões usados na pintura corporal são utilizados também na decoração dos objetos feitos pelos índios.





A seguir vão peças feitas por índios do Xingu. Apesar dos desenhos serem diferentes, é possível verificar um padrão gráfico semelhante neles:



Objetos de índios do Xingu, em sentido horário: espátula de madeira
usada para preparar alimentos, cerâmica para assar beiju, panela
em forma de tartaruga e máscara representando espírito

A seguir, quatro cumbucas de cerâmica, cada qual feita por uma etnia diferente, com seus grafismos tradicionais:


Índios Asurini - Pará


índios Mehinaku, do Parque do Xingu/Mato Grosso


índios Wai Wai, do Pará

índios Kadiwéu, de Mato Grosso do Sul

Para saber mais:
- Grafismo Indígena: Estudos de Antropologia Estética ; de Lux Vidal
- Arte e Técnicas Kadiwéu ; de Jaime Garcia Siqueira Jr.
- Arte Indígena, Linguagem Visual ; de Berta G. Ribeiro

Tuluperê: Mitos dos índios Wayana-Apalay

Instrumentos de sopro


Apito de cerâmica

Flautas longas

Instrumentos de percussão

Tambor

Trombeta

Tambores da região do Acre







Para saber mais:

  • site da UNESCO - http://www.unesco.org/culture/intangible-heritage/masterpiece.php?id=54&lg=en
  • Kusiwa: pintura corporal e arte gráfica Wajãpi ; de Dominique Tilkin Gallois
  • Exposição: "Tempo e Espaço na Amazônia: Os Wajãpi" ; no Museu do Índio da cidade do Rio de Janeiro ; endereço: rua das Palmeiras, 55 (há previsão que essa exposição fique em cartaz até dezembro/2006)

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