quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

PROCESSOS DE CRIAÇÃO EM ARTE


O QUE É PROCESSO DE CRIAÇÃO EM ARTE? (Layo Bulhão)

O processo de criação do artista é a parte mais valiosa da obra. Lógico que o produto final é importante, mas é durante o inicio e o término da obra que estão suas inquietações, erros e acertos, dúvidas e certezas, vontade de mudar tudo e o mais importante os seus questionamentos.

Todo artista se pergunta no seu processo de criação, ou pelo menos deveria se perguntar: O eu quero dizer com essa obra?

A obra final de um artista não é o ápice de sua criação, mas descobrir já durante o processo que impactos irão causar no seu público.

O artista vive a obra somente enquanto ela esta sendo produzida, pois quando é finalizada quem passa a vivenciá-la é o fruidor, o contemplador de sua obra.

Os processos de criação na atualidade estão sendo cada vez mais valorizados, pois é o instante do autor com sua obra. A construção da obra é um lugar que tem vários caminhos e isso é prazeroso tanto para quem faz como para quem vê.

Mas no campo de investigação dos processos de criação, existem muitos equívocos. Primeiro, o processo de criação é, antes de tudo, busca por um produto final que ainda não se sabe claramente o que é, mas que se tem uma noção de onde se quer chegar. Segundo, mostra de processos não são explicativos do que é processo. Terceiro não se deve ignorar o público assistindo. Os processos criativos são fragmentos que gosto ou mostram onde “até aqui cheguei, mas ainda não é isso que quero” .

Talvez a palavra mais próxima que defina o que vem a ser processo criativo é possibilidades.



Exemplos de processos de criação em diferentes linguagens

Texto


(...) Cada artista tem seu tempo de criação. É difícil saber quando começa a gravidez e quando se dá o parto. Há pintores que são permanentemente prenhes, parindo ninhadas como era o caso de Picasso. Eu, antes de iniciar a viagem – o quadro -, consulto minha bússola interior e traço o rumo. Mas, quando estou no mar grosso, sempre sopra um vento forte que me desvia da rota preestabelecida e me leva a descobrir o novo quadro. Todo criador é um Pedro Álvares Cabral. (...)

(In: Camargo, Iberê, Gaveta dos Guardados, São Paulo: EDUSP, 1998. p.31-36.)

Artes Visuais

  • Marulho (1997-2006) - Cildo Meireles 
(...) fotografias de mar em centenas de livros abertos que cobrem o chão, sob um deck de madeira (um píer) na instalação de Cildo Meireles, que se complementa com reprodução em áudio da palavra água enunciada por crianças e adultos em 80 línguas diferentes.






Exposição de Cildo Meireles na Pinacoteca do Estado

Teatro

  • Cia. Caixa de Fuxico - A Batalha dos Encantados (2007) 
"O espetáculo foi criado a partir da pesquisa sobre os orixás, da pesquisa com objetos, das imagens que  esses orixás trazem em suas narrativas e da música sempre pesquisada ao vivo por músicos experientes. Por exemplo, Euá é uma orixá que se transforma em rio, então pesquisamos suas características: é a bruma, a névoa, a transformação da água, a poesia entre outras imagens. A criação da cena surgiu através do repertório comum que tínhamos eu [Andrea Cavinato] e a musicista [Márcia Fernandes], dos nossos tempos de vivência no Teatro Ventoforte: dar forma às imagens com panos, com cor, com movimento e com música. Essa cena da foto é, especificamente, quando Euá 'nasce' como orixá, ou seja, deixa de ser humana e passa a ser uma força da natureza, uma fonte que jorra e se transforma em rio."









A Batalha dos Encantados parte 01 Caixa de Fuxico




A Batalha dos Encantados parte 4 Grupo Caixa de Fuxico



Dança


  • Terpsí Teatro de Dança - E la nave no va II
A imagem da coreografia do Terpsí Teatro de Dança mostra como objeto cênico um tacho de lavar roupa.






  • Balé da Cidade de São Paulo - Baile na Roça: coreografia para Portinari (1998)


Baile na roça é o título que Cândido Portinari deu à primeira tela em que retratou o Brasil, pintando uma típica festa popular de sua cidade natal no interior de São Paulo, Brodósqui. A obra foi rejeitada pelo Salão Oficial da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, pelas inovações técnicas incorporadas pelo pintor. Baile na roça é também o nome do espetáculo que o Balé da Cidade de São Paulo remonta neste ano para comemorar os cem anos desse pintor brasileiro que sempre buscou as raízes de seu país.Mas as relações entre Portinari e a dança estão longe de se esgotar neste nome. Além de pintar variadas telas sobre bailes e festas de sua terra, ele ainda estendeu sua arte para os figurinos e os cenários do balé Iara, apresentado no Brasil em 1946 pelo Original Ballet Russe.
Aliás, foi a partir do convite de remontar Iara, história da rainha das águas e sua luta contra o Sol da seca nordestina, que Baile na roça – Coreografias para Portinari começou a andar com seus próprios pés. O Projeto Portinari, coordenado pelo filho do pintor, conseguiu resgatar os cenários e os figurinos da peça, mas a coreografia permaneceu desconhecida. Diante da falta de registros sobre Iara, o diretor José Possi Neto (ECA/USP) montou um novo espetáculo, inspirado em diferentes telas do pintor e dançado pela primeira vez em 1998, quando Possi era diretor do Balé da Cidade.
A versão atual mantém a divisão anterior em cinco balés, sendo que um deles subdivide-se ainda em três partes. “Cada um dos balés foi coreografado por bailarinos da companhia. Cada um tem uma busca e se inspirou em telas e aspectos diferentes de Portinari”, explica Possi. A ligação entre eles são os trechos da coreografia de Ana Teixeira que se alternam com as criações dos outros bailarinos. “Ela quis mostrar as mulheres fortes através de seus pés, suas mãos e costas marcantes nas telas. Os três quadros da coreógrafa são mais conceituais”, conta a diretora artística do Balé da Cidade de São Paulo, Mônica Mion, que dançou o espetáculo em 1998. Na cena sobre as mãos, os figurinos de Lino Villaventura permitem que somente as mãos dos dançarinos apareçam. O mesmo acontece com outras partes do corpo.
Da roça para o palco – Os pés dos bailarinos traduzem para a dança os pés da roça, dos espantalhos, dos retirantes, dos músicos, das crianças, dos brasileiros enfim retratados por Portinari, ele próprio “um caipira”, como se definia. Ao fundo do palco, as pinturas que influenciaram cada cena do espetáculo são projetadas com uma alteração – os personagens de Brodósqui foram retirados para que os dançarinos dessem vida a eles durante o balé. É assim que o sanfoneiro, o João Negrinho e os familiares de Portinari, retratados em Baile na roça, pulam para o palco e que os cenários das telas do pintor se transformam em cenários do espetáculo.
Um ícone bastante pintado por Portinari, ao qual ele se compara em um de seus depoimentos, é o espantalho. Essa importante figura da crendice popular, tema apreciado pelo pintor, recebe o único solo do espetáculo, quando um dançarino se movimenta pendurado por elásticos, utilizando técnicas circenses. Além de retratar a realidade na “roça”, a temática urbana das telas do pintor também serviu de inspiração, como conta Possi.

Representando retirantes oprimidos na cidade grande, uma bailarina dança dentro de uma espécie de aquário que se esvazia ao fim da cena, ao som de Deodeca, de Caetano Veloso e Jacques Morelembaum. A Orquestra Sinfônica Municipal, com regência do maestro Henrique Lian, interpreta as composições também assinadas por Egberto Gismonti, Sérgio Assada e Hermeto Paschoal, que encerra o balé com forrós, “os bailes da roça”, segundo Possi. Para o diretor, o espetáculo tem uma estética com valores e temáticas brasileiros, características que Portinari teve coragem de assumir em sua obra Baile na roça, desafiando os preceitos acadêmicos vigentes no País para retratar a identidade nacional.

A obra Baile na Roça, de Cândido Portinari, inspirou
a criação do espetáculo, para o Balé da Cidade de São Paulo













segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

ENTRE GRITANDO

A relação entre Arte e público





A relação entre arte e público sempre me despertou curiosidade, por querer saber qual é o nível de profundidade na fruição de obras de arte. Mais especificamente, este interesse se volta à arte contemporânea, pois na minha condição de artista procuro fazer uma leitura de como esta relação se processa para o meu próprio entendimento, fruição ou qualquer outra experiência que uma obra de arte venha proporcionar.

Desse modo, os trabalhos que desenvolví foram produzidos com o intuito de refletir sobre um pensamento considerado não erudito, ou seja aquele que não é adquirido pelo viés acadêmico. Ainda assim, esse gosto não erudito se constrói por meio de diversas classes sociais em diferentes níveis culturais.

Outro aspecto relevante, da minha produção, é o de proporcionar uma visão da arte como forma de comunicação entre indivíduos. Destaco este aspecto, pois, a arte contemporânea parece estar fadada a um círculo muito restrito de iniciados pela academia. A pouca visitação dos espaços que abrigam este tipo de arte é um fato que parece ser superado apenas em mega eventos, com orçamentos milionários. No dia-a-dia, exposições menores, em sua grande maioria, com orçamentos curtos não têm muita visibilidade e não são vistas e apreciadas pelo grande público.

O embate cotidiano do público em geral com a arte não existe nem nos espaços públicos ou institucionais, nem nos espaços privados e nem nas tentativas, por parte dos artistas, de levar a arte para as ruas, onde teoricamente este embate deveria acontecer.

Essa relação, entre público e arte contemporânea, que num primeiro momento parece não ter profundidade, pois é desse modo que os próprios espectadores se referem ao seu grau de intimidade com a arte, é usada como matéria-prima na construção dos trabalhos aqui apresentados.

Luciano Mariussi 


Link:
http://www.muvi.advant.com.br/artistas/l/luciano_mariussi/luciano_mariussi.htm




Entre gritando, obra de Luciano Mariussi apresentada no Panorama MAM de 2005, tem algo da histeria em torno da arte contemporânea. Histeria da incompreensão, bem entendido. A proposta do artista era a seguinte: quem gritasse “eu sei o que é arte contemporânea” ao pisar no Museu de Arte Moderna de São Paulo ganhava desconto de R$ 1 na entrada. A dificuldade de personificar o visitante idealizado por Mariussi era dupla: as pessoas em geral se constrangiam com a hipótese remota de entrarem gritando – fosse lá o que fosse – em um museu; e ainda tinham que se haver com a dúvida “por acaso eu sei o que é arte contemporânea?” Além de entrar gritando no museu, comportamento fora de qualquer padrão de conduta em espaços de arte, o desafio era bradar a plenos pulmões uma provável mentira. E se o desconto só fosse concedido mediante a enunciação de alguma definição de arte contemporânea?

Era muita coisa em jogo por R$ 1. Nas três ou quatro visitas que fiz ao Panorama, não presenciei nenhum corajoso gritador ganhando o desconto na bilheteria. Mas há relatos do museu, segundo me contou o artista, de algumas pessoas que se aventuraram, sobretudo crianças. A obra era, na realidade, uma cilada (conceitual, claro. Quem gritasse “eu sei o que é arte contemporânea” ganhava o desconto sem precisar dar satisfação a ninguém sobre seus conhecimentos a respeito de arte). Era um convite simpático a ganhar um desconto (quem não gosta de uma promoção?) que, contradição entre termos, coibia o visitante de pleitear o seu merecido desconto. O trabalho era paralisante, apesar de se anunciar como uma proposta de ação. Uma convocação a agir fadada ao fracasso. Essa estratégia algo perversa é característica da produção do artista paranaense. Tomem-se as obrasJogo para jogador inepto (1999) ou Unfriendly (2001) e a estratégia, com variações de aplicação, poderá ser novamente observada (e “fruída”).

Além do paradoxo, da crítica e do questionamento presentes em Entre gritando, o que mais me agrada na obra de Luciano Mariussi para o Panorama de 2005 é a própria presença física da obra: durante mais de três meses ficou estampado na fachada de um dos principais museus da cidade o imperativo afirmativo do verbo “entrar” seguido do gerúndio do verbo “gritar”. Neste anúncio em grandes dimensões (as outras informações, “...eu sei o que é arte contemporânea e ganhe 1 real de desconto na entrada do MAM”, apareciam em letras proporcionalmente “miúdas”), reside a maior subversão promovida pelo trabalho. Se fosse nos dias atuais, em tempos de operação-limpeza-visual do prefeito Kassab, o letreiro no MAM seria ainda mais subversivo. O fato é que a presença desse “entre gritando” gritado na fachada do museu dava vazão a muita livre associação de ideias. Além de cilada, a obra era uma charada: arte contemporânea é... embutir ruídos na vida cotidiana e colocar as pessoas para pensar ou devanear.(...) 


Mediação Cultural

A ação do mediador cultural, nos territórios da mediação cultural, se refere a um trabalho de contaminar e provocar, na escola ou no museu, o público ingênuo, principiante, aprendiz ou especialista. Franz (2003) aponta que para o publico ingênuo não existe conhecimento prévio da arte, prevalecendo concepções intuitivas e místicas sem criar relações entre seu cotidiano e o que aprende na escola ou espaços culturais. O principiante, por sua vez, mistura suas crenças intuitivas com os conhecimentos adquiridos, e tem dificuldade de fazer conexões entre o que sabe e a obra de arte. O aprendiz possui algum conhecimento e ideias sobre arte e usa do seu conhecimento e intuição para ler a imagem. O público especialista possui um alto grau de conhecimento prévio sobre arte e a obra analisada e utiliza de seu conhecimento para construir, discutir e reconstruir seu conhecimento. 

A ação mediadora, como nós a entendemos, pretende contaminar e provocar os diferentes públicos, tornando-o capaz de passar ao ato de executar a obra em si mesmo, como nos fala Pareyson (1989). Ação mediadora que convoca a atitude necessária à compreensão dos diversos elementos da cultura e da arte na contemporaneidade, passando pela estética do cotidiano, o design de objetos, móveis e embalagens, pela diversidade de narrativas, linguagens, pela multiplicidade de cores, matizes, tonalidades, traçados que hoje envolve a vida de todos. Trata-se de um saber transitar, articular e produzir pensamento sobre e através dos signos da cultura. É necessário, cada vez mais, um trabalho de mediação que ative as sensibilidades disseminadas na pele da vida.


O que é Arte Contemporânea 

A arte contemporânea é construída não mais necessariamente com o novo e o original, como ocorria no Modernismo e nos movimentos vanguardistas. Ela se caracteriza principalmente pela liberdade de atuação do artista, que não tem mais compromissos institucionais que o limitem, portanto pode exercer seu trabalho sem se preocupar em imprimir nas suas obras um determinado cunho religioso ou político.

Esta era da história da arte nasceu em meados do século XX e se estende até a atualidade, insinuando-se logo depois da Segunda Guerra Mundial. Este período traz consigo novos hábitos, diferentes concepções, a industrialização em massa, que imediatamente exerce profunda influência na pintura, nos movimentos literários, no universo ‘fashion’, na esfera cinematográfica, e nas demais vertentes artísticas. Esta tendência cultural com certeza emerge das vertiginosas transformações sociais ocorridas neste momento.

Os artistas passam a questionar a própria linguagem artística, a imagem em si, a qual subitamente dominou o dia-a-dia do mundo contemporâneo. Em uma atitude metalingüística, o criador se volta para a crítica de sua mesma obra e do material de que se vale para concebê-la, o arsenal imagético ao seu alcance.

Nos anos 60 a matéria gerada pelos novos artistas revela um caráter espacial, em plena era da viagem do Homem ao espaço, ao mesmo tempo em que abusa do vinil. Nos 70 a arte se diversifica, vários conceitos coexistem, entre eles a Op Art, que opta por uma arte geométrica; a Pop Art, inspirada nos ídolos desta época, na natureza celebrativa desta década – um de seus principais nomes é o do imortal Andy Warhol; o Expressionismo Abstrato; a Arte Conceitual; o Minimalismo; a Body Art; a Internet Street e a Art Street, a arte que se desenvolve nas ruas, influenciada pelo grafite e pelo movimento hip-hop. É na esteira das intensas transformações vigentes neste período que a arte contemporânea se consolida.

Ela realiza um mix de vários estilos, diversas escolas e técnicas. Não há uma mera contraposição entre a arte figurativa e a abstrata, pois dentro de cada uma destas categorias há inúmeras variantes. Enquanto alguns quadros se revelam rigidamente figurativos, outros a muito custo expressam as características do corpo de um homem, como a Marilyn Monroe concebida por Willem de Kooning, em 1954. No seio das obras abstratas também se encontram diferentes concepções, dos traços ativos de Jackson Pollock à geometrização das criações de Mondrian. Outra vertente artística opta pelo caos, como a associação aleatória de jornais, selos e outros materiais na obra Imagem como um centro luminoso, produzida por Kurt Schwitters, em 1919.

Os artistas nunca tiveram tanta liberdade criadora, tão variados recursos materiais em suas mãos. As possibilidades e os caminhos são múltiplos, as inquietações mais profundas, o que permite à Arte Contemporânea ampliar seu espectro de atuação, pois ela não trabalha apenas com objetos concretos, mas principalmente com conceitos e atitudes. Refletir sobre a arte é muito mais importante que a própria arte em si, que agora já não é o objetivo final, mas sim um instrumento para que se possa meditar sobre os novos conteúdos impressos no cotidiano pelas velozes transformações vivenciadas no mundo atual.

Fontes:
http://www.coladaweb.com/artes/artecom.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_contemporânea




Vídeo criado pela equipe do Itaú Cultural para abrir a exposição Trilhas do Desejo e aproximar o público da arte contemporânea. A exposição é um dos resultados do programa Rumos Artes Visuais 2008-2009, que busca identificar e promover obras e artistas contemporâneos de todo o Brasil.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Música: O Corpo utilizado como Instrumento Musical



CORPO X INSTRUMENTO

Quando chamamos o corpo de ‘instrumento musical’, possivelmente, estamos incluindo-o no mesmo universo dos outros instrumentos musicais, mas será que ele é só mais um deles?

Dependendo de como usamos a terminologia, estaremos optando por valores diferentes. Por exemplo, se, em vez de usarmos a palavra ‘instrumento’, usarmos a palavra ‘recurso’, estaremos transformando a visão de mundo atribuída ao corpo.

Nós somos o nosso próprio corpo e, ao considerá-lo um instrumento, no sentido de ‘objeto’ ou ‘utensílio’, estamos atribuindo este valor a nós mesmos. Diferentemente, quando dizemos que o corpo é um recurso, no sentido de ‘origem’ ou ‘fonte’, exercitamos uma outra percepção: ao produzir música a partir dele, estamos produzindo música a partir de nós mesmos. Esta diferença é crucial para entendermos o significado da música que é produzida a partir dos sons do corpo, prática que sempre nos acompanhou, desde nossas origens.


Barbatuques é um grupo brasileiro de percussão corporal.

Criado em 1995 pelo músico paulistano Fernando Barba , o Barbatuques é formado por 15 integrantes (André Hosoi, Marcelo Pretto, André Venegas, Dani Zulu, Flávia Maia, Giba Alves, João Simão, Lu Horta, Heloiza Ribeiro, Mairah Rocha, Maurício Maas, Renato Epstein, Charles Raszl e Lu Cestari) que propõem, sobretudo, fazer música a partir do batuque com o próprio corpo, como palmas, batidas no peito, estalos com os dedos e a boca, assobios e sapateados, resultando ritmos do samba ao rap. Além disso, mostra o resultado da coletividade e da brasilidade como tema.


As expressões orgânica e corporal mostram o desenvolvimento de linguagens cênicas e visuais com projeções de imagens e coreografias.


Grupo Barbatuques

                       Barbapapa's Groove - Barbatuques                             




A música pode ser obtida também com objetos do dia-a-dia. 
Um grupo bastante conhecido que utiliza esse recurso para suas performances é o grupo Stomp.

Grupo Stomp
O Grupo Stomp utiliza materiais de sucata, recicláveis e objetos inusitados (vassouras, caixas de fósforo e latas de lixo) para produzir sons e ritmos musicais. Além dos instrumentos, a expressão corporal dos artistas e o público, com suas palmas, ajudam a construir as oito performances apresentadas em palco. Alguns dos materiais utilizados pelo Stomp semanalmente: 30 vassouras, 288 litros de água, 2 galões de tinta, 10 mastros de madeira, 40 jornais, 10 quilos de areia, 10 tampas de latões de lixo, 4 cabos de martelo, 5 rolos de fita adesiva, 2 rolos de ataduras, 12 caixas de fósforo, 1 lata de lixo com pedal, 10 botinhas, 1 fita métrica, 7 Garbage Cans, 20 baquetas, 4 caixas de lenço e 3 canetas.

A palavra stomp pode se referir a um subgênero distinto de teatro físico, onde o corpo incorpora-se a outros objetos como meio de produzir percussão e movimento que ecoa as danças tribais.






terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Intervenções

Alexandre Orion


Alexandre Orion Criscuolo (São Paulo SP 1978). Artista visual, fotógrafo e designer. Inicia, como autodidata, em 1993, seu trabalho com grafite e arte pública, e, em 2001, com fotografia. Em 2004, gradua-se em artes visuais pela Faculdade Montessori - Famec, São Paulo. Cria, em 2002, o projeto Metabiótica, em que suas pinturas realizadas nos muros da cidade, intencionalmente produzem relações visuais com os transeuntes e o espaço urbano. Essa interação entre as figuras pintadas e as situações reais é registrada em fotografias, que são o resultado final do trabalho. É autor, em parceria com Monica Murakami, do curta-metragem Uma Janela para o Mundo, produzido em 2002, e, em 2004, de Desdobramento Rua Augusta, produzido pela Big Bonsai. No mesmo ano, cria a instalação Desdobramento I, realizada nos elevadores da Galeria Ouro Fino, em São Paulo, durante o Projeto Coisa Fina. Participa, em 2005, das mostras Amalgames Brésiliens, em Mantes-la-Jolie, e Rencontres Parallèles, no Centre d'Art Contemporain de Basse-Normandie, em Hérouville Saint-Clair, ambas na França. Em 2006, inicia a intervenção urbana Ossário, na qual utiliza apenas panos para remover a fuligem impregnada nas paredes do Túnel Max Feffer, na cidade de São Paulo, criando imagens de caveiras humanas.

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=8661


http://liveunderconstruction.wordpress.com/2011/01/20/alexandre-orion/









sábado, 25 de janeiro de 2014

A Arte, como é hoje...


Arte efêmera: Instalações, performances e happenings

Muitas vezes, ao pensarmos em obras de arte, como uma pintura, por exemplo, imaginamos a Monalisa, de Da Vinci, ou O grito do Ipiranga, de Pedro Américo, ou, ainda, esculturas de mármore... Obras que permanecem ao longo do tempo e da história.

Mas o que dizer de obras de arte pública, por exemplo? Muitas delas foram produzidas com a clara intenção de serem modificadas pela ação do tempo e, até mesmo, de desaparecer, como o grafite, os tapetes feitos com serragem, sementes e folhas - que, em algumas cidades, a população costuma fazer nas ruas, para a celebração de Corpus Christi ou da Semana Santa -, esculturas de areia ou gelo.

E não podemos esquecer também das instalações, das performances e dos happenings, realizados por artistas contemporâneos, obras que existem apenas durante o tempo em que são realizadas, como a performance Homem-pão, de Tatsumi Orimoto:


Tatsumi Orimoto, Homem-pão. Performance.


Ou a obra/performance de Ronald Duarte, Nimbo Oxalá, na qual existe uma preocupação com a execução, como se fosse uma espécie de ritual, podendo ser pensada e lida do ponto de vista do produto realizado naquele momento, ou seja, uma grande coluna de gás carbônico formando uma escultura efêmera: 



Segundo definição encontrada nos dicionários, efêmero é aquilo que é passageiro, temporário, transitório.

Eterno/efêmero

Contudo, nem toda obra de arte pública foi feita para desaparecer. Quando pensamos em monumentos históricos, por exemplo, a intenção é de que permaneçam com o passar do tempo. E performances e happenings podem ser registrados em audiovisual, sendo que, nesse caso, o que permanece é o registro e não a obra em si.

Temas como a materialidade das obras de arte e a oposição eterno/efêmero são problematizados pela arte contemporânea, pois são questões extremamente ligadas à nossa realidade, ao mundo da velocidade em que vivemos, no qual as notícias de ontem já estão ultrapassadas.

Um importante artista plástico brasileiro, que também discute a questão da durabilidade da obra de arte, é Vik Muniz. Em seus trabalhos faz uso de técnicas diversas e emprega, com frequência, materiais inusitados como açúcar, chocolate líquido, doce de leite, catchup, gel para cabelo, lixo e poeira, entre outros.

Em algumas de suas séries, o produto final é a fotografia da obra, devido à perecibilidade dos materiais empregados.

Acima, nas réplicas da Monalisa, Muniz utilizou geléia e manteiga de amendoim. Depois fotografou. Trata-se, claramente, uma discussão sobre o eterno versus o efêmero.

Intervenções Artísticas no Espaço Público











Uma das manifestações artísticas mais interessantes do século XXI são as intervenções artísticas nos ambientes urbanos. Esses trabalhos trouxeram novas possibilidades visuais onde não eram imaginados, alias, onde não eram explorados.





As intervenções nasceram basicamente no universo “underground” do século XX, mas é fato que esse tipo de trabalho veio das Instalações ou Ambientes Artísticos e influenciadas pela Arte Conceitual. As instalações são manifestações artísticas onde uma obra é exposta em um ambiente fechado ou aberto, já no caso das intervenções são em ambientes abertos.


 

 

 






Pode-se pensar que essas duas definições são parecidas, mas não são. As Instalações se iniciam de uma proposta de “espaço limpo” e as Intervenções de uma proposta de “espaço a ser explorado”. Exemplo:

Instalações:


 



Intervenções:


 



O que essas manifestações exploram e sempre tras é muito particular, mas uma definição interessante é do artista visual Wagner Barja que diz que, “cabe observar que, atualmente nas artes visuais, a linguagem da intervenção urbana precipita-se num espaço ampliado de reflexão para o pensamento contemporâneo… Aparece como uma alternativa aos circuitos oficiais, capaz de proporcionar o acesso direto e de promover um corpo-a-corpo da obra de arte com o público, independente de mercados consumidores ou de complexas e burocratizantes instituições culturais.”


 

 


As intervenções variam nas suas estruturas, mas tem um apelo reflexivo, político-social, didático, confrontador, ideológico ou simplesmente humorísticos.




Artur Barrio na época da ditadura militar no Brasil já conseguia explorar essa manifestação artística em forma de protesto com a distribuição de inúmeras trouxas de pano ensangüentadas e com restos mortais de animais. Embrulhos com carnes e ossos foram também espalhados pelos bueiros da cidade. A imprensa e o público, por muitos dias, acreditaram que fossem cadáveres do regime.







Um dos artistas mais falados, na verdade mais vistos na internet é o “OaKoAk”, esse francês fez trabalhos nas ruas de Saint Etienne, centro-oeste da França que são bastante copiados na internet. 



 







Os caras do “Poro” são artistas brasileiros de Belo Horizonte que além de seu viés político também trazem um trabalho que desperta um sentimento poético no transeunte. Sempre inusitados eles discutem algo antigo, mas sempre importante: “- O que é arte no espaço urbano? O que ainda é mais claro nesse documentário deles, Intervenções Urbanas e Ações Efemêras. 




Um dos maiores ganhos das intervenções ao longo do tempo e ter conseguido expandir do seu caráter subversivo e hoje ser até incentivando. Como o professor Wagner Barjan diz “Essa tendência em ‘desmusealizar’ a obra de arte, tornando-a interativa com manifestações culturais de outra linguagem ou natureza, ocupando espaços públicos e abertos, vai também rediscutir modelos canônicos impostos à arte pelo sistema da tradição museológica e os atuais modelos de política de democratização para o acesso à cultura visual contam com a intervenção urbana para redimensionar o espaço de convivência nas artes contemporâneas.”

Alguns artistas e grupos que indico e que devem ser pesquisados e observados são: (clique nos links para visualizar mais obras)

- 3nós3

- Manga Rosa

- Arte Coletivos

- Filthy Luker

- Frente 3 de Fevereiro

- Kevin Ledo

- Mark Jenkins

- e muitos outros


Mesmo sendo um designer acredito que a linguagem e o entendimento dessa manifestação pode trazer grandes referências para o desenvolvimento de um projeto.

Se você consegue ver arte e novas perspectivas visuais no seu caminho de casa para a universidade imagina o que você não pode projetar?







 

Recomendo que você faça algumas intervenções para ver como realmente é um abrir de mente.


Artistas que interferem com sua arte

Roberto Burle Marx
Artista plástico brasileiro




Roberto Burle Marx (1909-1994) foi artista plástico brasileiro. Autor de mais de três mil projetos de paisagismo em 20 países. Foi também pintor, escultor, tapeceiro e criador de joias.

Roberto Burle Marx (1909-1994) nasceu em São Paulo, no dia 4 de agosto de 1909. Filho de Wilhelm Marx, judeu alemão, comerciante de couro, e de Cecília Burle, pernambucana, descendente de franceses. Seu pai foi criado em Trier, cidade natal de Karl Marx, que era primo de seu avô. Desde pequeno observava e participava dos cuidados de sua mãe, com o jardim e a horta de sua casa.

Em 1913, depois de uma crise financeira, a família vai morar no Rio de Janeiro, permanecendo na casa de familiares. Quando a empresa de curtume e exportação de couro voltou a dar lucro, a família muda-se para um casarão no bairro do Leme. Em 1917, Burle Marx começou a cultivar seu próprio jardim.

Em 1928, a família viaja para a Alemanha, em busca de tratamento para um problema nos olhos de Burle Marx. Em Berlim, fica fascinado ao visitar o Jardim Botânico, onde descobriu a beleza de diversas plantas brasileiras. Durante esse período, estuda pintura no ateliê de Degner Klemn. Em 1930, de volta ao Rio de Janeiro, ingressa na Escola Nacional de Belas Artes, hoje Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde estudou com Cândido Portinari. Durante o curso conviveu com Oscar Niemeyer, Helio Uchôa e Milton Roberto, grandes nomes da arquitetura moderna.

O primeiro projeto de jardim público de Burle Marx foi a Praça de Casa Forte, no bairro do mesmo nome, em Recife, em 1934. Foram usadas plantas da Mata Atlântica e da Amazônia, como a vitória régia. Nesse mesmo ano é contratado, por quatro anos, para a diretoria de Parques e Jardins, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco.

Durante esse período, projetou mais de 10 praças, entre elas a Praça da República, no Palácio do Governo, a Praça do Arsenal da Marinha, a Praça do Derby, a Praça do Entroncamento e a Praça Euclides da Cunha, conhecida também como Praça do Internacional. Sua instalação causou grande polêmica, por ser ornamentada com plantas da caatinga e do sertão nordestino. Foi convidado para projetar os jardins do terraço do Edifício Capanema, do Ministério da Educação e Saúde do Rio de janeiro.

Em 1949 adquire um sítio de 365.000 m2, em Guaratiba, Rio de Janeiro, onde cultiva uma grande variedade de plantas. Em 1971 recebe a Comenda da Ordem do Rio Branco, do Itamaraty em Brasília. Em 1982. recebe o título de Doutor Honoris Causa da Academia Real de Belas Artes de Haia na Holanda. Nesse mesmo ano recebe o título de Doutor Honoris Causa do Royal College of Artes em Londres, Inglaterra. Em 1985 doou seu sítio de Guaratiba ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Burle Marx, alé de projetos de paisagismo, também se dedicou à pintura, escultura, tapeçaria e à criação de joias. Em 2009, em homenagem aos 100 anos de seu nascimento, foi realizada em São Paulo, no Museu de Arte Moderna, uma exposição com pinturas do artista.

Roberto Burle Marx faleceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de junho de 1994.






Burle Marx está presente em outras formas no cotidiano andreense, como no mural em concreto no saguão do Teatro Municipal, na gigantesca tapeçaria de vinte e seis metros de comprimento por três de altura feita especialmente para decorar o interior do Paço Municipal e também na praça da Igreja São Judas Tadeu, no bairro Campestre, em Santo André, que infelizmente foi descaracterizada com o tempo.

Calçadão de Copacabana



Luiz Sacilotto (Santo André, SP, 1924 – São Paulo, 2003)




Filho de imigrantes italianos, Sacilotto começou a pintar por volta de 1940.

Entre 1944 e 1947, estudou desenho na Associação Brasileira de Belas Artes. Trabalhou como publicitário e desenhista de arquitetura.

Depois de uma primeira fase figurativa de teor expressionista, participou da exposição 19 Pintores, na Galeria Prestes Maia, em 1947. Integrou o Grupo Ruptura, em 1963. No ano seguinte foi um dos fundadores da Associação de Artes Visuais Novas Tendências.

Participou de diversas edições da Bienal Internacional de São Paulo, da Bienal de Veneza, da Exposição Nacional de Arte Concreta (São Paulo e Rio de Janeiro, 1956-1957), Konkrete Kunst (Zurique, 1960) e Projeto Construtivo Brasileiro na Arte:1950-1962 (Pinacoteca do Estado de São Paulo e MAM/RJ, 1977).

Considerado por Waldemar Cordeiro como a “viga mestra da arte concreta”, Sacilotto foi um dos principais precursores do movimento no Brasil. Afeito à sensibilidade de uma cultura industrial e adepto da economia dos meios plásticos, o artista articulava em seu trabalho elementos da op art e do minimalismo, ultrapassando as fronteiras da abstração geométrica em objetos que rompiam os limites do plano bidimensional.

'Concreção 005', escultura do artista Luiz Sacilotto

Calçadão da rua Cel. Oliveira Lima

Vista parcial de obra de Saciloto 
no átrio do Bloco B da Universidade Federal do ABC